Fim de dia memorável

Data: 2 out 2008
Escrito por Jovas
Categoria: Bizarro, Cotidiano
24 Comentários

Nota: os acontecimentos que relatarei a seguir seguem de forma cronológica e aconteceram no final de um dia de trabalho, como posso falar… interessante.

Antes, quero dizer que hoje tenho consciência de 3 certezas infindáveis da vida:

  1. Velhos que tem audição equivalente à de um tamanduá surdo são fdps
  2. Mendigos poderiam ser uma excelente raça de políticos
  3. Fingir outra identidade é uma coisa legal APENAS nos filmes

Tudo teve início no final do dia (Sacou? Início, fim …Tá, deixa pra lá).

17:48
Faltando poucos minutos para o expediente do trabalho terminar, a João — pra quem não lembra, é uma das moças que trabalha comigo — me passa uma tarefa, digamos, gratificante: carregar pilhas maciças e pesadaças de documentos para setores EXTREMAMENTE distantes do meu. Devo ressaltar que esse seria um trabalho apropriado para dois Robocops, mas como sempre fui o escolhido para fazê-lo. Como aparentemente a véia me odeia, não me perguntem por que, creio que o objetivo dela ao me passar tal atividade nada mais era que o óbvio: me foder. O transporte manual dos papéis, destruiria todos os ligamentos da minha coluna com uma eficácia similar ao efeito que um arrastão de praia faria caso passasse por cima da minha pessoa, comigo sendo pisoteado duramente enquanto minha face entra em contato com uma areia repleta de cocô fresco de cachorro.

Por algum motivo sádico, de uns tempos pra cá essa véia não me dá mais moleza. Como vi que não tinha muita opção, fiz duas pilhas com os documentos e fui entregá-los. Na primeira viagem sigo a um setor qualquer, coloco a pilha na mesa do estagiário de lá, o maluco assina o papelzinho de confirmação do recebimento e agora faltava só entregar a segunda pilha de documentos para eu poder ir embora. Volto à minha sala, pego o segundo lote e vou no outro setor determinado.

17:54
Adentro na sala e percebo que ali só havia uma pessoa, um véio no auge dos seus 600 anos, mexendo num computador.

O senhor obeso está olhando pra na tela do PC como se ali houvesse algum hieroglifo de uma cultura maia desconhecida, cujo segredo era a resposta de como deixar de ser brocha utilizando supositórios e chá de caules de bambu.

Pois bem, quando chego na entrada da sala, dou uma batidinha na porta como aviso de que havia chegado. O véio não ouve e fica na dele. Novamente bato na porta, só que dessa fez com mais força. Nada do gordo me ouvir. Chego mais perto dele e mando aquela velha tossida que diz “Fdp tem gente aqui”, mas nada do maluco me olhar. Porra, eu queria demonstrar um mínimo de educação e anunciar que tava entrando na sala, mas o cara não facilitava. Peguei então a pilha de documentos, joguei na mesa e iniciou-se o diálogo:

– Senhor, receba esses documentos aqui, por favor.
QUÉ ISSO, RAPAZ! Como você me dá um susto desse??
– Eu lhe dei um susto?
– Claro, chega que nem cobra de mato.
– Eu bati na porta, meu senhor.
– Bateu com mão de veludo?
– Você é um filho da puta surdo?
– Não disse isso, mas pensei. Falei a frase abaixo.
– Não, bati duas vezes até.
– Eu não sou surdo. Você está achando que sou surdo?

Tô achando que você é doido, seu fdp. Que situação maldita era aquela?

– Não, mas agora eu tenho CERTEZA como os anos influenciam nas pessoas.
– Isso mesmo, tem que ter respeito.
— me responde o senhor essa frase totalmente sem nexo.

E nisso ele me dá o recibo e eu saio daquela sala um pouco impressionado com o nível surdez bizarra do cara e plena consciência de que nunca vou esquecer aquele diálogo miserável na vida.

18:00
Volto à minha sala, me despeço da chefe e vou embora. Tinha marcado com a namorada de ela passar na esquina do quarteirão do trabalho e me buscar por ali. Sigo então até a esquina e me sento no murinho de uma casa que aparentemente só abriga headbangers adoradores do Satã — toda vez que passo por ali o metal come solto e tenho quase certeza que é no volume mais alto que as caixinhas de som do dono da casa conseguem aguentar.

Fico esperando a namorada e nisso passa um mendigo. Não sei se vocês já notaram, mas mendigos são pessoas que não perdem uma oportunidade sequer. Pode estar passando outro mendigo por eles, mas mesmo assim os caras pedem algum dinheiro.

Então esse cara me vê e vem falar comigo. O bafo de cana era nítido. Aposto que se riscasse um fósforo ali, uma explosão equivalente a uma mini bomba de hidrogênio aconteceria. Quando acabo de falar ao cara que não tinha grana nenhuma, seu radar aguçado de morador de rua captou uma velhinha que carregava compras de supermercado e que naquele momento dobrava a esquina. A esquina era um pouco longe, de início eu não vi a velhinha aparecer. Nem se eu tivesse um cão farejador especializado em odor de velhinhas que carregam sacolas plásticas, o cachorro ia perceber aquela presença. Mas o mendigo percebeu.

A cena que vi em seguida foi algo demonstrava toda habilidade política que uma pessoa poderia ter.

18:06
Deveria estar meio puto pela namorada estar atrasada, mas a cena entre o mendigo e a velhinha começou a me entreter.

Num primeiro momento, o mendigo chegou na senhora mandando aquele clássico pedido protocolo e suas justificativas. Disse que morava longe, tinha 5 filhos pra alimentar e que tava precisando de uma ajudinha. A senhora, ainda segurando as compras, disse que não tinha nenhum trocado naquele momento. O mendigo não se deu por satisfeito e falou que estava “correndo atrás” e que até tinha parado de beber pra conseguir um emprego. Porra, das duas uma, ou aquela senhora não tinha olfato pra perceber o potencial etílico que havia naquele maluco, ou ele realmente não bebia e trabalhava numa fábrica cachaça como degustador de baldes de pura cana.

Nesse momento a velhinha começou a ficar comovida. Colocou as compras no chão e começou a procurar na bolsa algum dinheiro sobrando. O mendigo viu que a senhora tinha abaixado a guarda e então deu início a uma distribuição sonora de frases desconexas e aleatórias. Seu objetivo era confundir mais a velhinha e arrecadar tudo que fosse possível dela. Vi quando o cara disse “Sou da igreja” e o diabo da velha começou a tirar algumas compras que ela tinha feito e encher o saco de entulhos que o malucão carregava. Acho que se ela não tivesse na menopausa, até absorvente o mendigo político tinha conseguido que ela lhe desse.

18:10
Depois de praticamente dar 70% das compras ao mendigo, eles se separam e a velhinha segue para sua casa. Que eu não sabia, mas era a casa dos headbangers. A senhora me dá boa noite, eu retribuo e confesso que fiquei com vontade de pedir um pacotinho de Cheetos que eu vi numa de suas sacolas. A chance de ela me dar, pelo visto, eram imensas, mas nessa hora um carro pára ali perto de mim e dá uma buzinada. Detalhe, o carro era IGUAL ao da minha namorada. Mesma cor, vidro fumê, buzina parecida e tal. Pensei “É ela”. Sigo para o veículo e quando abro a porta e já vou entrando com um sorrisão, percebo que quem dirigia o carro era um cara. Um cara de cabeça raspada, orelha de lutador de jiu-jitsu e EXTREMAMENTE forte. Sim, eu tinha errado de carro.

– Quem é você, rapá?!111!!111! – retruca o halterofilista.
– …
– TE CONHEÇO, RAPÁ???
– Err… eu pensei que você fosse um conhecido meu. Sou o… Tobias.
– Eu não conheço nenhum Tobias! E que conhecido seu, maluco??

O cara estava realmente bravo. E eu me perguntava porque estava tão inspirado para conversar com pessoas cujo manter um diálogo não era exatamente uma boa idéia.

– O… (penso num nome de um pagodeiro frequentador de academia) …Marcão.
– Marcão?
– Sim, rapá, Marcão. Não conhece?
– Cê tá falando do Marcos, meu primo?
– … Sim?
– Ahh, rapaz, acho que você deve ter me confundindo com ele. A gente se parece mesmo. Toca aqui, Tobias!

Nesse instante o cara apertou minha mão e doeu. Mas não é aquela dorzinha de quando você dá uma cabeçada na parede. Porque essa é uma dorzinha se você comparar com o aperto de mão que o cara me retribuiu.

– Cara, mas é isso aí, vou ter que ir nessa! Manda um abraço pro Marcão! — falei em seguida.
– Pode deixar! De vez em quando ele pega carona comigo nesse horário e a gente passe aqui nessa rua. Com certeza a gente fala outro dia!

18:16
Fui aguardar minha namorada em outra rua e hoje tenho certeza que vou evitar com todas as minhas forças ficar esperando carona naquela esquina, mesmo se a velhinha quiser me dar Cheetos diários.

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    24 comentários em “Fim de dia memorável”

    1. Piteco disse:
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      Comédias da vida privada!

    2. Felipe disse:
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      Cara! Muito foda, suas histórias…São demais, você concegue retratar o seu cotidiano de forma totalmente hilária, parabéns pelos textos. São shows.
      Adorei essa parte:
      “ou ele realmente não bebia e trabalhava numa fábrica cachaça como degustador de baldes de pura cana”

      Foda!

      Abraços.

    3. Thomas disse:
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      aUHHUAhuAHUahaUAUhua

      ai meu deus… assim vc acaba comigo (ui!)…

      to raxando o bico aqui…

    4. Antonio Carlos Lima disse:
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      Parabéns, rapaz! Tô aqui rindo feito um bobo no meio da sala onde trabalho.

    5. Daniela disse:
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      kkkkkkkkkkkkkkkk

      Ainda bem que te deixei esperando.
      Graças a MIM tem história pra contar. :D

    6. Daniela disse:
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      Ahhh, esse véio quando tá no pc é que nem eu.
      Pode tá o mundo se acabando que eu nem vejo. :PPP

    7. Jeffisu disse:
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      kauakuaukkauukakuaukaukaukakau

      entrar no carro errado e ainda se fzr passar por outra pessoa e ainda por cima “colar” foi d+

      chorei de rir aqui!

    8. Vinicius disse:
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      E ai Maluco eu sou o cara do Carro.. então você não conhece o Marcão ???

      Vou te dar umas porradas depois….

      uahuauh

    9. Virgínia disse:
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      Teu blog foi um dos meus melhores achados nessa última semana. Sua habilidade de contar histórias é incrível! Parabéns, cara :)

    10. Jovas disse:
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      Sua alegria é nossa alegria. Mas não se empolguem, seus malditos.

    11. Marcelle disse:
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      auhsuahushaushuahsuahuh’
      a parte do velho surdo é a melhor-Tô achando que você é doido, seu fdp. Que situação maldita era aquela?

      morri de rir akii.
      Suas historias são as melhores
      ;D

    12. Perdy Howard disse:
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      Nossaaa..cara eu sempre leio o seu blog, mas nunca comentei (eu tenho timidez virtual).
      Mas agora tenho que falar..nunca vi uma pessoa que simplesmente é um imã para acontecimentos bizarros. Escreve um livro depois hahahaahahahaha

    13. Martins disse:
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      UAHAHhahahauaAUHAUHAAaAH

      Cara a maneira como você descreve essas paradas do dia-a-dia são EXCELENTES!

    14. NaTu disse:
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      huahuahauha
      hilário…show!

      falowsss

    15. Will disse:
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      Essa foi uma das melhores…caraca, entrar no carro errado foi foda!

    16. Jan disse:
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      tu ta de sacanagem…vc nao mandou a do marcao…

      =D

      kkkkkkkkkk…E como nao brochar com supositorio e cha de bambu…AHAHAHHAHHAHAHAHAHAA

    17. Elaine Mesoli disse:
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      Caraca, tá foda, muito bom.
      Cara, e aí? Quando a gente se vê pra tomar uma?Saudades de tu e dos outros dois sacanas.
      Nem parece que fazemos o mesmo curso véi.

    18. Rafa disse:
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      hahahhaha….tô rachando de rir aqui!!!
      Cara essas coisas só acontecem contigo mesmo!!!
      vc´eum imã……..muito bom…..

    19. Israel disse:
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      KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK

      Quando li isso me lembrei da vez que pisei no pé de um maluco num show e depois de o cara me ameaçar de morte perguntei “perae, cara… você é amigo do Rafael né?”

      AUAHUAHUAUAHU

    20. Rafael disse:
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      hahahahh Muito bom.
      Espero que o “marcão” não seja gay,haha. =P

      Abraços!

    21. Bruno disse:
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      Cara! Muito foda, suas histórias…São demais, você concegue retratar o seu cotidiano de forma totalmente hilária, parabéns pelos textos[2]

      virarei um frequentaor assiduo (?) desse blog (Y)

    22. j. noronha disse:
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      Chegando atrasado mas não tem como não comentar isso.

      …cujo segredo era a resposta de como deixar de ser brocha utilizando supositórios e chá de caules de bambu.

      Melhor frase da semana, hehe…

    23. bastardo disse:
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      e jovas, te ensinei bem… como todo ser com menos de 30, odeio velhos… e a história do careca… já rolou umas várias comigo, e tive que mentir muuuito pra dar certo no final… o mundo será dos safados!!!

    24. akane disse:
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      Jovás você é demais, faça novos posts porque você vai longe, e por favor responda aquele comentário do muleke dentuço, adoro seus posts.

    Comenta, diacho!

    (blog, fotolog, orkut)

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