
Blind Date. Ou “Encontro às escuras”, no idioma deste blog. Ou numa tradução mais correta “Como ser inocente e se foder bonito”.
Acho que todo mundo já passou por uma experiência dessas. Principalmente grande parte das pessoas que, como eu, entravam em chats numa época que câmeras digitais simplesmente NÃO EXISTIAM. Sendo assim, diariamente você trocava idéias com alguém que não tinha noção de como era a fuça da pessoa, pois o indivíduo era desprovido de fotos pessoais no computador. E com o passar do tempo surgia a idéia absolutamente insana de marcar um “blind date”.
Já falei que nos tempos do mIRC, meu processo de sociabilidade avançava de acordo com a quantidade de pessoas que conhecia cada vez que fazia uso do programa de conversação. Entrava no canal do meu estado (#sergipe) e a medida que a galera — leia-se garotas — ia fazendo perguntas na “sala” que me interessavavam, eu respondia iniciando algum diálogo. Geralmente me instigava a começar o bate-papo por dois motivos:
1. Se a garota fosse do meu colégio.
Era uma forma de não perder tempo. Bastava saber a classe da menina, perguntar a algum amigo se ele a conhecia e pedir para que na hora do intervalo do lanche o cara me mostrasse a talvez beldade. Se fosse bonita eu ia lá conhecer; se não fosse, não fazia muita questão. Entenda, eram tempos em que os objetivos de um garoto eram basicamente ficar com alguma menina e sair da fase “pega-ninguém” e zerar Metal Gear Solid. Iniciar uma amizade ficava totalmente em segundo plano.
2. Se a menina viesse falar comigo
Se a garota se dava o trabalho de abrir uma janelinha com um “Oi, quer tc?”, mesmo eu sabendo que as chances de ela ser um jaburu eram 89% de acordo com as estatistícas do senso comum, eu conversava. Sempre tive um bom coração. Minto, era desespero mesmo, mas continuemos.
Nesses dois casos geralmente a conversa não fluia bem, a menina falava em miguxês ou supostamente queria conversar mas não falava NADA. Nunca entendi bem isso, pra que você pede pra “teclar” se não fala NADA? Porém, nem sempre era assim, até que às vezes vida inteligente era encontrada às 23h de um sábado à noite. Mas era muito POUCAS vezes.
Tipo, imagina que você tá numa festa na casa de algum amigo e depois passar 3 horas sem ficar com ninguém, ocorre um apagão. A energia elétrica é cortada por algum motivo que não interessa e a casa fica num breu total. Você não senta na cama, porque há o risco de regurgitar, então vai até à cozinha e encosta numa parede ficando estrategicamente posicionado em frente à geladeira, a fim de beber o maior número possível de cervejas antes que elas fiquem quentes. Enquanto usa as papilas gustativas para tentar adivinhar qual a marca do néctar de cevada que ingere, no meio do escuro uma moça de voz simpática lhe pede uma lata de cerva. Você oferece e começam a dialogar enquanto esperam o tempo passar, na esperança que a eletricidade volte. Descobre então que a moça é super gente boa, que gosta de Star Wars e que gostou do seu papo. Nessa hora você já está ficando bêbado e quer o quê? Que a luzes se acendam, claro. E essa é a lógica do blind date. Ver quem é a pessoa legal que você encontrou, mas que desconhece a face. O que cê esquece é que, no exemplo citado, a pessoa é uma moça que está na cozinha conversando com um semi-bêbado sobre George Lucas e sabres-de-luz, enquanto que os outros integrantes da festa estão participando de orgias nos outros cômodos da casa. Agora, você realmente acha que ela é BONITA?
Como eu era inocente o bastante para acreditar isso nessa época dos chats, resolvi marcar um encontro com uma menina que conversava nas madrugadas de net discada. Na verdade eram duas meninas, duas amigas, e eu e um amigo (que também conversava com elas) resolvemos marcar um “double date”. Como não éramos tão sem malícia assim e sabíamos que talvez as garotas legais da internet fossem garotas legais que pesavam 8 arrobas, decidimos um encontro duplo, pois caso desse merda, nós dois pelo menos poderíamos compartilhar diálogos como:
– Cara, cê viu o tamanho do bigode daquela que tava de vermelho? Ela tinha mais barba que eu e você… JUNTOS.
– Nem me fale. Ela me lembrou o Leôncio.
Marcamos então de encontrar as meninas num dos shoppings da cidade, em frente ao cinema. Uma delas tinha namorado, e na nossa dedução juvenil era a mais bonita, já que se algum cara a tinha escolhido para ser sua garota, é porque algum dote ela deveria ter. Como parecia que as duas queriam algo com a gente, mesmo correndo o risco de sermos pegos por uma gangue de delinquentes amigos do namorado e então corno se menina ficasse com um de nós, ignoramos o instinto natural de prezar pela vida e fomos descobrir como eram aquelas garotas.
No dia do encontro, elas disseram que iam estar de preto e usando tênis All Star. Eu e meu amigo dissemos que íamos de branco. Fomos de azul e verde, pois se a propaganda fosse enganosa, poderíamos fugir sem maiores problemas.
Ao chegar no shopping com a esperança de literalmente tirar a boca da miséria, fomos direto para o cinema e ficamos que nem dois snipers, alucinados por alvos femininos de decotes generosos. Esperamos, esperamos, e quando já estávamos crentes de que aquelas meninas eram na verdade dois caras que entravam na internet e iludiam garotos só pra sacanear, duas meninas de preto e All Star adentram o hall do cinema. Segue o diálogo:
– Cara, será que são elas? – indaga meu amigo.
– Quem, aquelas duas ali? A magrela alta e a baixinha de braço cabeludo?
– Er… sim.
– Impossível. Deus não é tão sacana assim. Três meses de conversa que nem era tão legal, para no fim ficarmos com garotas que são feiaças?
– Acho que são elas. Opa, tão olhando pra cá, DISFARÇA!
– …
– …
– Pararam. Porra, são elas. Olha, parecem estar procurando alguém também.
– Fudeu. VAMO NESSA.
Saímos do hall do cinema dando passos largos, na tentativa de evitar constrangimentos alheios. Sei que é cruel marcar algo com uma pessoa e não dar as caras, mas na época os dotes físicos importavam bastante. E já falei que elas eram FEIAÇAS?
Sem olhar pra trás, continuamos andando a esmo, achando que a fuga tinha sido bem sucedida. Que nada. Elas deram a volta por um dos corredores do shopping e quando nos demos conta, as meninas estavam a dois metros das nossas pessoas. Vieram falar conosco:
– Ei, vocês são Fulano e Cicrano?
– Er… Oi?
– Somos Lacraia e Bolinha de Pêlos. – Nomes fictícios feitos para ilustrar a história.
– Ahh, sim! Ei, tamo atrasados, a gente tem que… A gente tem que ir ali.
– Pouxaaa. Fiquem maix!
– Não dá. Sério, realmente NÃO DÁ.
– Hihihi, tá. A gente se fala na netxx.
E saíram.
As garotas queriam só conhecer a gente, por conhecer mesmo. Ou vai ver que não alongaram o papo porque nos acharam de feiura equivalente a delas. Mas creio que não. Mesmo se você pedisse para que o Dolph Laudren em pessoa, na época que ele filmava “Rocky IV” fazendo o Ivan Drago, te desse murros na face utilizando luvas de box besuntadas de cola, vidro moído e tachinhas, você continuaria com uma beleza mais harmoniosa que a daquelas meninas. E além do mais naquele dia eu tinha caprichado no perfume.
Já que aparentemente não queriam nada, pelo menos nem fiquei com muito peso na consciência por ter tentado fugir. O legal é que que hoje posso rir disso. Bom, nem tanto. Era melhor eu ter ficado em casa assistindo Fuga de Los Angeles na TV e perdi porque fui encontrar dois demônios num shopping.
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dois demonios…
auhAHUAHuhuaUHhuaUHAuhAAUH
uhaUAhauhAhuaHauhaAUHauhAU
meu deus do ceu…. ja passei por isso tambem…
huAHUAuhaHahuAUHauhuaHAUh
uahuahhuauah
Muito BOA!
Tb já me encontrei com certas coisinhas.
ilusão maldita! ![]()
“Entenda, eram tempos em que os objetivos de um garoto eram basicamente ficar com alguma menina e sair da fase “pega-ninguém” e zerar Metal Gear Solid.”
Cara,eu nunca zerei Metal Gear Solid,caralho.
-
hahahahahhahahah ÓTIMO POST CARA.
Ri pra carai aqui,hahahahaha.
Abraços.
Nossa…que maldade a parte do Dolph Lundgren…hahahaha
Eu já passei por isso, mas o meu blind date foi bem mais desastroso e no lugar do homem alto, bonito e forte, pense em um buda, baixinho e gordo..=[
Trauma 4evah.
Ótimo texto!
Caraaaaaaaaaalho, eu nem lembrava mais disso auhauhauhauhau ![]()
Já me decepcionei também. Acho que foi ainda pior, porque o cara me mandou uma foto bem “propaganda enganosa” mal escaneada. =/
O orkut e a facilidade de foto tirou toda a “magia” do Mirc.
“Somos Lacraia e Bolinha de Pêlos”
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
bolinha d pêlos eh o fim, po!
muita onda ![]()
hahahah e qum nao tem estorias como essa pra contar? aki em SP usava-se mais o ICQ… tenho cada estoria de outro mundo tmb q pelo amor!
Vc deu azar companheiro, conheci uma namorada no mirc e fiquei com muiiita gente através dele, choro diariamente o fim do canal sergipe e do rockse…
@Rafael
Pior que AINDA não zerei! Se não me engano eram 2 CDS do jogo, né? Bom, sei que peguei o jogo emprestado com esse amigo aí do double date até, e um dos CDS não funcionava. Completei só metade do game.
Mas qualquer dia pego emprestado algum CD que rode e termino. Acho que tenho o save até hoje. O_O
@Troile
Então o mIRC tá pra você como o MSN tá pra mim. =D
Engraçado que só marquei um “blind date” até hj, mas n exatamente um blind date, pq pelo menos eu e a menina nos conhecíamos por ft. Mas o interessante é q ela me achou bem diferente pela ft e eu a achei bem diferente (entenda-se mais “boa”) pela ft.
Só fiquei uma vez c a menina, mas já valeu a pena =)
ah, e eu já zerei metal gear solid umas 8 vezes, hehehe!
[...] Texto: A ilusão dos blind gates. [...]
HUAhUAH
Cara, os blind dates de internet ruleiam.
A época do mirc realmente era a melhor. O rosto por trás daqueles nicknames era sempre um mistério a ser descoberto.
Muito bom, voltarei para ler mais vezes. Aquele abraço!
Minha primeira e unica blind date com fins sexuais até que num foi tão ruim… Rendeu uma ex-mulher… Tudo bem, agora com orkut, fotos minhas e essa belezura de cismar que fico bonito de pirata, acho que realmente vou ter que apelar pra minha personalidade…
Comenta, diacho!