Postado em 22-06-2008
Categoria(s) (Cotidiano) por Jovas

Trabalho maldito

Graças aos festejos juninos, amanhã nem terça-feira eu trabalho. Que maravilha. Só que tava pensando aqui, não sei se já falei aqui o suficiente para detalhar como é o meu emprego. Meu estágio, na verdade. Faço faculdade de Jornalismo e estagio numa empresa que vamos evitar nomes para também evitar demissões.

Porém, minha função não tem nada a ver com às artes milenares do jornalismo. Passa longe disso. Nada relacionado a pauta, reportagem, apuração, mídia, ingressos pra assistir filme de graça no cinema, nada. Apenas mexo com documentos; redijo, carimbo, localizo, guardo uns e entrego outros nos devidos setores. É um trabalho relativamente fácil, a grana que recebo é razoável, e há alguns meses não tinha queixa alguma. Releia, por favor, a parte do “não tinha“. As coisas não estão boas como eram.

Mas antes, vamos começar do início.

Em pouco mais de um ano trabalhando na empresa, já passei por três setores; o número 1 não teve muita relevância, a não ser que o fato de naquela época eu ter zerado todos os Donkey Kongs de SNES no período de uma semana; o número 2, o do chefe gente boa e estagiário duvidoso; e o setor atual, o número 3. Minha alegria vespertina. Falarei e compararei esses dois últimos setores a seguir.

Você deve saber que um dos quesitos básicos para satisfação de uma pessoa durante sua jornada de trabalho, é um ambiente agradável. Aposto um tamagotchi que nenhum cobrador de ônibus, por exemplo, depois de trabalhar o dia inteiro vendo TODOS os tipos de suvacos existentes na natureza, sai no fim do expediente e diz ao colega “Cara, vou te falar, hoje foi bom. Aqueles suvacos, aquele fedor, o calor infernal… nada melhor!”.

Pois bem, no setor 2 eu podia dizer meu ambiente de serviço era bom. Era MUITO bom, pra ser sincero. Meu trabalho consistia em três ações básicas: entrar na sala, ligar o computador e respirar. Mais NADA. Trabalhávamos lá eu, meu chefe e o estagiário duvidoso. Já falei dele por aqui. O local era bastante tranquilo, quase nada chegava nada para ser feito. Só pra você ter uma idéia, uma das dificuldades máximas que eu tinha era tentar descobrir que horas a tia do andar de baixo ia trazer o cafezinho.

Até meu posicionamento na sala era bastante favorável: ficava no fundo do setor, lá no fundão, e a porta de entrada/saída ficava no extremo oposto. Podia olhar os novos posts do Kid sem problema algum.

Vamos a um desenho para uma melhor compreensão.

Bons tempos

(clique para ampliar)

Quem chegava ao setor via logo a tela do PC do outro estagiário, que com certeza deveria estar rolando algum clipe da Britney ou Mariah Carey. Já eu ficava lá embaixo, perto do banheiro entupido, mas na mais plena paz. Como a mesa do meu chefe ficava de frente para a minha, uma das poucas distrações que tinha era quando de vez em quando ele soltava alguma de suas histórias — como a da vez em que estava fornicando com uma dona e o cachorro dela resolveu brincar de zoofilia grupal. Quase todos os dias alguma coisa, digamos, MUITO BIZARRA era passada em forma de fábula à minha pessoa. Mas nada que incomodasse.

Certo dia estava lá na minha mesa tentando adivinhar quem tinha colocado um wallpaper de bovinos no computador que eu usava, quando meu chefe me comunica que vou ter que trocar de setor, por causa de uma reformulação geral. Me avisou que eu ia pro setor do andar de baixo. O setor que era conhecido como “A Feira”. Pelo menos que eu o denominava assim. Sem brincadeira, eu podia embebedar um filhote de Abominável e soltar lá dentro que o pessoal não iria sequer notar. Todos seriam desmembrados e paralelamente continuariam conversando sobre o capítulo da novela do dia anterior. É, aquele não era um bom setor.

Na tarde seguinte não subi as escadas como faria normalmente e fui direto para minha nova mesa de trabalho. Eis minha nova sala:

Novo setor

(clique para ampliar)

O novo setor se divide em três sub-salas: a de entrada/saída, onde eu fico; a sala da chefe, à direita; e o Inferno, à esquerda. E em vez de três, são dez pessoas no setor. A privacidade de ter uma mesa em posição estratégica, foi totalmente anulada. Agora até a que traz a água vê o que eu faço.

Minha atual convivência é principalmente com a Maria e a João, duas senhoras de certa forma simpáticas. A Maria é evangélica, e seu hobby é tentar converter qualquer pessoa que passe a 1 metro do seu raio. A João dá em cima da Maria de maneiras tão sutis quanto uma bomba nuclear caindo exatamente em cima da sua cabeça. Às vezes ouço frases como “Garoto (se referindo a mim), diz aí se a Maria não é uma mulher organizada? Seria a esposa perfeita”, e a Maria achando que a João apenas tem um bom coração. É, de vez em quando me divirto.

Nada a reclamar da minha chefe. Logicamente. Ou você acha que eu ia reclamar da minha nova chefe num meio que qualquer pessoa do MUNDO pode acessar?

Ah, faltou falar sobre a salinha da esquerda, o Inferno. É composta por 6 pessoas, cada uma no seu devido PC com Windows 98, e a mesinha do café. Chamo esse lugar de moradia do capeta porque esse foi o primeiro termo que surgiu na minha cabeça, mas não é a forma mais correta de designação, pois garanto que nem o diabo viveria lá. Cara, o pessoal não pára de falar um minuto. Mesmo quando eu tento PENSAR, as vozes dos seres da sala ao lado invadem meus ouvidos, causando um stress tamanho que de vez em quando me pego formulando técnicas de como fazer coquetéis Molotov utilizando canetas, tinta para cartucho e copinhos descartáveis.

Falando nisso, pra conseguir um pouco de cafeína agora preciso ultrapassar uma barreia de som fiadaputa. Saca a Sindel, do Mortal Kombat, com aquele golpe super sônico? Pois então. Não estou exagerando. Até no telefone eu vejo maluco falando em decibéis equivalentes ao barulho feito por hienas sequeladas. É foda.

E sobre minhas tarefas atuais? Esqueci de falar que sou o único estagiário do setor, então me pedem para fazer funções que vão desde carimbar manualmente documentos com 300 folhas a contar essas mesmas 300 folhas carimbadas e contá-las, para ver se realmente são 300 folhas. E geralmente são.

De vez em quando também preciso anexar certos documentos noutros documentos. Detalhe que todos os funcionários do setor trabalham com uma papelada variada, transformando todo o local num armazém de arquivos perdidos. Sendo assim, para anexar certos papéis a outros, o primeiro ato é ACHAR o documento matriz, que pode estar em qualquer canto da sala. Saca caça ao tesouro?

Resumindo, eu tenho que olhar todas as pastas de arquivos, que estão por toda a sala, para achar UM documento apenas, percorrendo assim esse caminho. Que beleza, não?

Enfim, tô tentando me acostumar, mas tá difícil.

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    Comentários

    Rafael em 22 June, 2008 às 2:34 pm #
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    Mais foda-se. Amanhã e terça eu não vou fazer porra nenhuma e é isso que conta. =D

    Ps: Putz,cê mora em sergipe e BLOGA? Isso pode ser comparado à achar um viado num puteiro,haha. Tamanha a dificuldade.

    Também moro em Sergipe.

    Abraços!


    Jovas em 22 June, 2008 às 2:56 pm #
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    @Rafael
    Eu sei, é mei estranho, diz aí? :]
    Véio, e eu achava que encontrar nerds aqui pela província era difícil, mas nem tanto. Na pré-estréia de Iron-Man nunca vi tantos malucos demonstrando empolgação ao reconhecer Stan Lee.


    Rafael em 22 June, 2008 às 5:21 pm #
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    É. Eles estão todos escondidos. Comentando o quanto o PS3 é superior ao xbox360 ou/e dando gritos histéricos quando assistem Iron-man,haha. =D

    Abraços!


    Hank em 22 June, 2008 às 6:01 pm #
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    hahahauhuhauuah

    seu trabalho pode ser ruim, mas a descrição foi muito boa.


    Thomas - Papo de Bar em 23 June, 2008 às 10:47 am #
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    hauahuhahauahu

    to raxando o bico aqui…

    realmente estagiario soh se fode… me lembro muito bem quando era estagiario do banco do brasil… sofri muito… hauahuahuauah


    Cab em 23 June, 2008 às 8:09 pm #
    Gravatar

    Eu vim aqui agradecer pelos bons minutos de risadas que esse texto me propiciou! Então, errr, obrigado! =D

    “Até no telefone eu vejo maluco falando em decibéis equivalentes ao barulho feito por hienas sequeladas”

    Hahahaha! =D


    Walker em 25 June, 2008 às 6:03 pm #
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    Hahaha
    Muito bom, principalmente pela parte do Coquetel Molotov.
    Muito bom mesmo !
    rsrs
    Abração


    Friederichs em 26 June, 2008 às 10:14 am #
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    Bixão,
    eu ainda não sei se prefiro minha vida e estagiotario ou efetivado(leia-se escravo com carteira assinada).

    Relaxa, daqui para frente é só pior!


    Rapidinha | Recomendo, Com Cerveja! em 1 July, 2008 às 12:49 pm #
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    [...] trabalho pra cumprir as horas perdidas. Vou ficar o DIA INTEIRO por aqui. E cês lembram como foi a descrição desse maravilhoso lugar, né? Pois é. Mas como nada apareceu ainda pra ser feito, tava pensando em, daqui do trampo mesmo, [...]


    Comenta, diacho!

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